Projeto de Pesquisa
Coordenador: Prof. D.Sc. Carlos Henrique Ataíde
Pesquisador colaborador: M.Sc Fabio de Assis
Ressel Pereira
Em parceria com o Alambique Fazenda Santa Fé (cachaça Lenda do Chapadão) e a COOCATRIL (Cooperativa dos Produtores de
Cachaça do Triângulo Mineiro).
1 - Caracterização do problema e justificativa
Segundo dados da Associação Brasileira de Bebidas – ABRABE, a produção
brasileira de aguardente mais que triplicou entre 1970 e 1999, saindo de 418
milhões de litros para cerca de 1,5 bilhão de litros anuais. O estado de São
Paulo é o principal produtor nacional de aguardente, onde operam 850 empresas
distribuidoras, com faturamento anual estimado em R$ 5 bilhões (SEBRAE, 2001).
Já o estado de Minas Gerais se destaca pela produção artesanal de
aguardente, com um volume total anual de 120 milhões de litros gerando cerca de
120 mil empregos diretos e 360 mil indiretos naqueles setores que gravitam em
torno dela. Embora a atividade da produção de aguardente de cana seja
economicamente importante, estima-se que aproximadamente 90% da produção
artesanal no Estado de Minas Gerais sejam ainda produzidos em modestos
alambiques de pequenas propriedades rurais (Cardoso, 2001).
Nestas pequenas propriedades rurais, geralmente, a produção de cachaça
se associa a outras atividades agropecuárias, em função desta ocorrer durante
a entressafra agrícola; especialmente nas regiões que apresentam período seco
mais acentuado. E a produção de cachaça artesanal tem apresentado bons
resultados na complementação da renda familiar destes pequenos “empresários”.
O produto artesanal tem maior apelo comercial, permitindo ao micro e
pequeno produtor a chance de atingir um público consumidor de aguardente mais
refinado e exigente, que se distingue da parcela de consumidores tradicionais de
cachaças industrializadas, por consumirem o produto sem misturas, reverenciando
a importância de seu paladar, sendo imprescindível para isso que ele apresente
qualidade.
Os alambiques de cobre são amplamente utilizados, especialmente por
produtores que trabalham em microescala. Este processo de produção em
alambiques de cobre ao invés de aço inox agrega vantagens nos aspectos organolépticos
(Cardoso, 2003), baixos teores de compostos sulfurosos e a presença de
componentes secundários como ésteres e álcoois superiores realçam o buquê
da bebida. Contudo teores residuais de cobre na bebida podem ser sérios obstáculos
para a comercialização tanto em nível nacional quanto na sua esperada projeção
no mercado internacional.
De acordo com a legislação nacional a quantidade máxima permitida de
cobre é 5,00 mg/L de aguardente. A presença de cobre em altas concentrações
é indesejável, pois o excesso de cobre solúvel no organismo pode ser tóxico
devido à afinidade deste elemento com grupos S-H de muitas proteínas e enzimas
(Sargentelli et al., 1996).
Segundo Franco (1999) a o teor médio de cobre para bebidas destiladas de
padrão internacional (whisky, rum, vodka, tequila e outras) situam-se entre
1,60 e 1,70 mg/L, concordando com o padrão de teor de cobre em vinhos de
1,62 mg/L (Munõz, 1988). Em seu trabalho, Franco (1999) comparou marcas de padrão
internacional com marcas de cachaças de três categorias, com os seguintes
resultados:
·
Cachaça de padrão para exportação, (16 marcas), com média
de 1,67 mg/L.
·
Cachaça de padrão nacional, (37 marcas), com média de
4,40 mg/L
·
Cachaça artesanal (16 marcas), com média 5,10 mg/L
·
Destilados de padrão internacional (26 marcas), com média
de 1,64 mg/L
Em outro trabalho da literatura, Azevedo et al. (2003) também analisou o
teor de cobre em 45 marcas de cachaça. Das aguardentes analisadas, 6,7%
apresentaram níveis de cobre acima do permitido pela atual legislação.
Estendendo os resultados obtidos para os padrões internacionais citados
anteriormente, 84,4% estariam fora da especificação. O que eventualmente
dificultaria a inserção do produto brasileiro no mercado internacional,
caracterizando uma barreira não-tributável à exportação (Oliveira et al.,
2003).
A conquista de níveis cada vez maiores de qualidade e competitividade é
uma constante preocupação dos agentes econômicos em todas áreas. A corrida
pela “reinvenção” das empresas,
atualização de tecnologias, processos e a adequação dos produtos aos padrões
de consumo do mundo globalizado. No setor da cachaça, a preocupação é a
mesma. O produtor nacional tem que estar atento para não perder a oportunidade
de conquistar os mercados para destilados em outros países.
Segundo Salgado e Cavalcante (2000), o cenário atual da comercialização
e exportação de aguardente vem crescendo nos últimos anos, e em 1998, seu
faturamento foi de US$ 6,9 milhões, aumentando para US$ 7,5 milhões em 1999.
As previsões para 2010 são otimistas, pois se acredita que chegará a US$ 100
milhões como a contribuição do modelo cooperativista (associação de
pequenos produtores). Atualmente apenas 0,5% da produção nacional de
aguardente é exportada, e o restante encontra-se direcionado para o mercado
interno.
A justificativa da proposta deste trabalho é iniciar em nível regional,
a atuação como agente multiplicador de conhecimento. Buscando desenvolver
pesquisa direcionada para as novas necessidades tecnológicas da cadeia produção
de aguardente artesanal, mesmo esta sendo para um processo de pequena escala,
mas de grande abrangência em número de produtores.
2 - Objetivos geral e específicos
Como objetivo geral da presente proposta de estudo, destaca-se a tendência
de redução dos teores de cobre em cachaça artesanais. Tendo em vista o
mercado externo como uma nova fronteira comercial, a cachaça brasileira deverá
se equiparar aos padrões de outras bebidas destiladas, como o whisky, o rum, a
tequila e a vodka.
A aguardente brasileira necessariamente passará por um processo de
adequação. Para isso propõe-se a utilização da técnica de adsorção, como
alternativa de remediação. Sem, contudo, abrir mão da identidade da fabricação
da cachaça artesanal pela utilização de alambiques de cobre. Já que este
processo artesanal tem melhor aceitação em relação às bebidas
industrializadas.
Em relação aos objetivos específicos, o trabalho pode ser dividido em
cinco etapas principais:
1. Estudo do processo de adsorção de
cobre
Nesta etapa haverá a seleção entre os principais materiais
comercialmente disponíveis, como por exemplo: vermiculita, magnetita, carvão
ativado, bentonita e resinas troca iônica. Onde serão avaliados parâmetros
operacionais, como: material empregado, permeabilidade, capacidade de adsorção
de cobre (mg de cobre/g de material), técnica de regeneração. Buscando
determinar qual a melhor relação custo benefício.
2. Avaliação da performance da adsorção
A capacidade de remoção do íon cobre será avaliada sobre a influência
das principais variáveis operacionais, como: o teor inicial de cobre,
capacidade de absorção, tempo de residência e vazão de filtração. Desta
forma o foco da investigação é a eficiência de separação.
Nesta etapa será conduzido um estudo para verificar se durante o
processo de remoção do cobre, há também alteração dos teores dos compostos
secundários (que conferem as características organolépticas), sendo os
principais: aldeídos, ésteres, álcoois superiores e acidez volátil.
Esta etapa foi sugerida por produtores que observaram que o uso de
filtros com carvão ativado eventualmente causavam alterações no aroma da
aguardente.
4. Estudo e acompanhamento das técnicas de produção
A equipe planeja um estudo do processo de produção da cachaça
artesanal, na expectativa de também identificar mecanismos preventivos para a
redução do teor de cobre. Para esta etapa estão programados testes e o
acompanhamento da produção em um alambique da região; o alambique Santa Fé,
de propriedade do Sr. Carlos Francisco de Assis Pereira.
Com destaque para a integração com pequenos e médios produtores, a
proposta de pesquisa busca soluções destinadas à melhoria do processo de
produção e da qualidade do produto final. Objetivando o intercâmbio de
conhecimentos e estreitar as relações entre a instituição de pesquisa e a
sociedade.
Os produtores poderão contar com a infra-estrutura para o acompanhamento
do processo de produção, com análises periódicas, verificando os teores de
cobre na cachaça produzida ao longo da safra. Além de terem acesso aos
resultados obtidos na pesquisa pela divulgação via
cursos de curta duração e relatórios disponibilizados na internet.
3 - Metodologia e estratégias de ação
Como estratégia tem-se a busca de tecnologias e condições de operação
para a redução do teor de cobre em cachaças artesanais de forma que esta não
seja uma barreira não tributável para as futuras inserções no mercado
internacional de bebidas. Estas tecnologias baseiam-se na adsorção e troca iônica
de metais, contudo há o critério para verificação de eventuais alterações
nas características organolépticas. A metodologia de execução pode ser
descrita em três etapas:
1. Caracterização
da aguardente a ser utilizada nos testes. As análises serão
conduzidas conformes normas da ABNT e normas específicas do Ministério da
Agricultura Pecuária e Abastecimento – MAPA, como por exemplo:
· NBR 13920 (1997) – Determinação do teor alcoólico real.
· NBR 13856 (1997) – Determinação de acidez titulável total, volátil
total e fixa.
· NBR 14052 (1998) – Determinação de álcoois superiores.
· NBR 13857 (1997) – Determinação de ésteres
· NBR 14053 (1997) – Determinação de aldeídos
· NBR 13921 (1997) – Determinação de cobre
· NBR 14051 (1998) - Determinação de metanol
2. Seleção dos
materiais para adsorção. Será inicialmente baseada em critérios
como a facilidade de obtenção e custo de aquisição. O objetivo é encontrar
a forma para reduzir os teores de cobre sendo uma tecnologia economicamente viável
para pequenos e médios produtores, além de determinar condições operacionais
que possam ser implementadas de forma prática para pequenos produtores.
3. Re-caracterização
da aguardente. Após o processo para redução dos teores de
cobre, por adsorção, uma nova caracterização da aguardente será realizada
visando identificar as possíveis alterações nas características organolépticas
do produto.
4 - Adequação da proposta aos princípios orientadores do
item 1.1 do Edital
Seguindo a linha de justificativa da proposta apresentada, pode-se
destacar os principais elementos de adequação em relação ao conteúdo
apresentado no presente edital.
1. Desenvolvimento
local pela integração com produtores
Uma das etapas da proposta de trabalho é o desenvolvimento local pela
integração com produtores; através da parceria com a Cooperativa
de Produtores de Cachaça do Triângulo Mineiro e ainda com outros
produtores ainda não cooperados pela região do Alto Paranaíba, perfazendo
algo em torno de 41 pequenos e médios produtores de aguardente, a Tabela abaixo
traz um exemplo da abrangência regional. Esta aproximação traz boas
perspectivas para as partes. Em relação aos produtores, constatou-se que há a
necessidade do conhecimento do processo de produção enfocando a qualidade; e
para a Universidade a possibilidade ampliar o campo da pesquisa aplicada com
novos desafios.
Tabela: Produtores de
cachaça artesanal do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba.
|
Razão
Social |
Cidade |
Marca
Cachaça |
|
Cooperativa
dos Produtores de Cachaça de Alambique do Triângulo Mineiro |
Tupaciguara |
Cooperativa |
|
Carlos
Francisco de Assis Pereira |
Uberaba |
Lenda
do Chapadão |
|
Industrial
e Comercial F. Pernambuco Ltda |
Patos
de Minas |
Benvinda
e Primeira
Dama |
|
Vimap
Ind. e Com. Cachaça Ltda |
Perdizes |
Dona
Beja |
|
Roberval
Junqueira Franco |
Prata |
Freguesia
do Carmo |
|
Gaspar
José de Ávila |
Araxá |
Rainha
de Araxá |
|
Ângelo
Antonio P. de Mattos |
Patrocínio |
Riacho
Velho |
|
Cachaça
Ribeirinha Ltda |
Carmo
do Paranaíba |
Ribeirinha |
|
Atalho
Atai Industria e Comercio |
Prata |
Atalho |
|
Chicrala
Agroindustrial Ltda |
Araxá |
Segredo
de Araxá |
|
Pedro
Eduardo de Oliveira |
Santa
Juliana |
Terenciana |
|
Tropeira
Rural Ltda |
Araguari |
Ventania
e GRM |
Embora o processo de produção de aguardente estar situado no meio
rural, a proposta visa empregar conhecimentos de outras áreas, como a da
Engenharia de Processos Químicos, com possibilidades de aplicação nas áreas
da fermentação (biotecnologia), destilação (operações unitárias), filtração
e separação por adsorção (cinética e termodinâmica).
O projeto se tornou praticável pela possibilidade da parceria com a
Cooperativa de Produtores de Cachaça do Triângulo Mineiro viabilizando um
canal direto de comunicação com os produtores, cujo papel será vital no
intercâmbio com a divulgação dos conhecimentos gerados e na acessoria para
aplicação dos mesmos.
A proposta de sistematização e divulgação dos resultados para estudo
baseia-se na em três categorias:
A inclusão de estudos de processos referentes às empresas da região
tem despertado muito interesse por parte dos discentes de graduação, apontando
que os cursos devem manter-se em constante adaptação para atender a demanda do
mercado de trabalho. A inclusão de alunos em pesquisa aplicada via projetos de
graduação (monografia de conclusão de curso) e iniciação cientifica são
uma forma de incentivar a melhoria da formação acadêmica e também o
empreendorismo dos futuros profissionais. Além de permitir a inserção de
novos tópicos de estudo na grade curricular, mantendo a constante atualização
do curso de graduação.
5 - Descrição dos impactos esperados e perspectivas de
aplicação dos resultados (tecnológicos, científicos, econômicos, sociais e
ambientais)
Como impacto da aplicação dos resultados, a equipe projeta que o
processo de redução do teor de cobre de aguardentes artesanais apresente os
seguintes desdobramentos:
6 - Descrição dos indicadores quantitativos
Relatório técnico sobre a caracterização das aguardentes artesanais
da região do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba. Nesta etapa está programada
a participação de alunos de graduação do curso de Engenharia Química,
iniciado os trabalhos para a elaboração de Projeto(s) de Graduação
(monografia). Os dados obtidos nesta etapa serão disponibilizados via internet,
através da criação de uma home-page e do envio de mala direta via e-mail.
Relatórios técnicos de Iniciação Científica e Dissertação de
Mestrado para o estudo comparativo das técnicas para redução de teores de
cobre via adsorção química e resinas de troca-inônica, onde além da
capacidade de retenção do metal, também será investigada a influência do
processo sobre a qualidade sensorial da bebida em termos de seus componentes
secundários. Como proposta a equipe planeja a participação de alunos do curso
de Engenharia Química com perfil para a Iniciação Científica e a inclusão
de uma dissertação de mestrado vinculado ao programa de pós-graduação. Os
resultados obtidos desta etapa do estudo serão também disponibilizados via
internet, através da criação de uma home-page e do envio de mala direta via
e-mail. Para a divulgação acadêmica, um artigo técnico será submetido a uma
revista especializada e de circulação nacional, além da participação em
congressos científicos.
Realização de curso de curta duração. Reiterando a integração com
produtores regionais, a equipe juntamente com a Cooperativa de Produtores de
Cachaça do Triângulo Mineiro realizará um evento com o intuito de
compartilhar dos resultados obtidos e implementar as melhorias tecnológicas
para a produção de aguardente. Além de estimular a aproximação com a
Universidade, visando aumentar o campo de pesquisa aplicada.
7 - Principais Referências Bibliográficas
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